Antropologia e literatura

[3º ano do 1º ciclo em Antropologia / Departamento de Ciências da Vida / FCTUC]

Apresentação

A cadeira de Antropologia e Literatura pretende, em primeiro lugar, discutir os contextos em que emerge a modernidade antropológica tendo em conta as suas relações com a literatura moderna e, em termos mais gerais, com as transformações culturais e históricas operadas já em pleno século XX por pensadores e autores como Ludwig Wittgenstein, T.S. Eliot, James Joyce, Sigmund Freud, ou Wallace Stevens. O eixo desta primeira discussão andará à volta de 1922, ano em que se fazem publicar trabalhos tão importantes como Argonauts of the western pacific de Malinowski, The andaman islanders de Radcliffe-Brown, Tractatus logico-philosophicus de Ludwig Wittgenstein, Waste Land de T.S. Eliot, ou Ulysses de James Joyce.

Em segundo lugar, pretende-se discutir aquilo a que se designa muitas vezes como pós-modernismo e suas implicações no conhecimento antropológico. Um dos aspectos mais decisivos do impacto do pós-modernismo na antropologia prende-se com a viragem literária da disciplina que parece, não sem celeuma, ter acontecido de modo enfático na década de oitenta do século XX. Sob a influência das correntes interpretativistas (cujo nome maior é, sem dúvida, Clifford Geertz), a antropologia descobre-se fundamentalmente enquanto «etnografia», sendo esta assumida como um género literário com os seus tropos e convenções. Assim, não é de estranhar a preocupação de cariz fortemente reflexivista que viria a mobilizar os editores e escritores de Writing culture (1986), tomado como manifesto de uma «nova« antropologia alicerçada em dispositivos conceptuais e críticos como os de «interpretação», «discurso», «retórica», ou «poder». Serão identificadas algumas das críticas mais severas aos «excessos» de reflexividade e hipocondria em que se terão abstecido os antropólogos pós-modernos. Mostrar-se-á como esta reflexividade e negatividade têm exemplos prévios (em Malinowski e nos seus diários, p.ex., mas também em Rodney Needham e na sua discussão sobre a crença). Mostrar-se-á também as raízes românticas que se fazem aí inscrever (através de Isaiah Berlin), e pelo menos um exemplo paralelo em que a revisitação etnográfica dá lugar à «comédia» (Nigel Barley).

Em terceiro lugar, pretende-se discutir a importância que esta relação entre antropologia e literatura veio a assumir num conjunto de antropólogos e autores de língua portuguesa recentes. Para tal, destacar-se-á o trabalho de Paulo Jorge Valverde, Ruy Duarte de Carvalho e Filipe Verde.

Bibliografia

Barley, Nigel (2006) O antropólogo inocente, Lisboa, Fenda.

Clifford, James & George Marcus (1986) Writing culture: the poetics and politics of ethnography, Berkeley, Los Angeles, Londres, University of California Press.

Clifford, James (1988) The predicament of culture: twentieth-century ethnography, literature, and art, Cambridge, Massachusetts & Londres, Harvard U.P.

Geertz, Clifford (1988) Works and lives: the anthropologist as author, Stanford, California, Stanford U.P.

Gellner, Ernest (1998) Language and solitude: Wittgenstein, Malinowski and the Habsburg Dilemma, Cambridge, Cambridge U.P.

North, Michael (1999) Reading 1922: a return to the scene of the modern, Nova Iorque & Oxford, Oxford U.P.

Valverde, Paulo (2000) Máscara, mato e morte em São Tomé: textos para uma etnografia de São Tomé, Oeiras, Celta Editora.

Verde, Filipe (2008) O homem livre, Coimbra, Angelus Novus.

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