Cultura e cognição

[2º ano do 1º ciclo em Antropologia / Departamento de Ciências da Vida / FCTUC]

Programa

O programa desenvolve um percurso em torno de algumas aquisições conceptuais e circunscrições temáticas da disciplina no que diz respeito ao problema da cognição.

Tem o seu início num dos debates metodológica e epistemologicamente mais estimulantes da antropologia em anos recentes: aquele que fez opor Marshall Sahlins a Gananath Obeyesekere.  O debate andou em torno do homicídio do Capitão James Cook às mãos dos havaianos no século XVIII. Para Sahlins, os havaianos teriam atribuído a Cook uma qualidade «divina» no contexto de uma matriz simbólica e ritual que podemos precisar. O regresso de Cook hors cadre teria sido o episódio potenciador do desenlace trágico. Para Obeyesekere, toda a leitura que Sahlins fez deste episódio é exemplo de uma projecção mítica ocidental, projecção essa que é histórica e politicamente significativa.

Se quisermos, as posições de Obeysekere e de Sahlins fazem contrastar, respectivamente, estratégias racionalistas e estratégias relativistas, e este debate, um dos mais estimulantes e significativos da antropologia das últimas décadas, vem mostrar-nos a importância que a relação entre cultura e cognição teve e tem na constituição da disciplina, mostrando-nos ainda como racionalismo e relativismo (em formas mais ou menos extremadas, mais ou menos matizadas) respondem de formas inconsistentes ao problema: ora reivindicando formas de racionalidade pan-humanas (Obeysekere, por exemplo), ora reivindicando formas de racionalidade que se nos afiguram estritamente localistas (Sahlins, por exemplo), sem que umas e outras nos permitam responder a esse grande problema, que foi sempre definicional para a antropologia e que é decisivo para aquilo que poderá ainda ser e vir a ser a antropologia hoje: de que forma é que um conjunto de representações e disposições práticas adquiridas modela e é modelado por aquilo que é parte de uma arquitectura mental-neuronal-corporal inata.

Assim, poderíamos talvez dizer que não há cultura sem cognição, nem cognição sem cultura, e que esta circularidade processual tem de ser problematizada. Foi o que fizeram quase todas as figuras mais destacadas do pensamento antropológico ao longo da modernidade, e este percurso ao longo de um semestre propõe-se abordar o problema tendo em conta três vértices principais:
1.    Mostrar como é que o problema foi objecto de reflexão aturada por parte dos antropólogos desde, pelo menos, os evolucionistas até Clifford Geertz
2.    Mostrar como a incorporação da antropologia no campo daquilo a que viria a ser apelidado de «a nova ciência da mente», a ciência cognitiva, produziu respostas que devem ser diferencialmente avaliadas.
3.    Mostrar como, contemporaneamente, pensamos o problema, fazendo-o situar em muito do que nos terá ensinado a ciência cognitiva, mas incluindo elementos que resultam das críticas (algumas delas particularmente severas e radicais) àquele campo interdisciplinar com o qual a antropologia não manteve uma relação sempre fácil ou produtiva por razões históricas que serão pontualmente afloradas.

Bibliografia

Quintais, Luís (2010) Cultura e cognição, Coimbra, Angelus Novus.

Sperber, Dan (1996 [1984]) «Anthropology and psychology: towards an epidemiology of representations», in Explaining culture: a naturalistic approach, Oxford: Blackwell.

Whitehouse, Harvey (2001) The debated mind: evolutionary psychology versus ethnography, Oxford, Berg.

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