Bilal e o cadáver mais que esquisito das «flores» de Baudelaire

Sempre me fascinou a importância que Baudelaire tem para Bilal. Assim, por exemplo, em A feira dos imortais (1980), o fim do regime fascista de J. F. Choublanc coincide com a loucura de Nikopol, cuja figura servira um dia os desígnios de vingança e poder do deus Horus que lhe tomara o corpo, roubando-lhe o arbítrio e a decisão.

O que é interessante aqui não é somente o modo como Bilal usa o tema eminentemente baudelairiano da possessão para falar de poder e de metamorfose (metamorfose política também, porque sem a possessão de Horus-Nikopol não seria possível chegar ao fim do terrível regime fascista de Choublanc), mas também o modo como, através desse tema, faz inverter o par loucura/sanidade inicial. Isto é, a relativa sanidade (e ironia) de Nikopol e a «desrazão» do sistema político de Choublanc do início dão lugar à relativa sanidade do sistema político (que coincide com o fim do fascismo) e à «desrazão» de Nikopol.

Este último já não é o possuído (Horus retira-se do seu corpo) do início, mas o condenado a viver entre Baudelaire e o humor. A manifestação do progressivo colapso da mente de Nikopol está no facto dele se limitar a recitar o lírico moderno (o primeiro poeta moderno?) e a ser sacudido por violentas gargalhadas.

Horus retirou-se e deixou-lhe o cadáver mais que esquisito das «flores» de Baudelaire inscrito no seu cérebro. E se aceitarmos que Baudelaire é o primeiro poeta moderno (o criador de uma poesia metropolitana que nos destituiu de vez de todas as declinações pastorais), então é como se a metrópole e tudo o que ela representa de complexo, estranho e mortal lhe tivesse tomado de assalto a arquitectura cérebro-mente.

Bilal parece querer dizer-nos, afinal, que o que importa ver, desenhar, escrever e pensar está algures escondido em Nikopol, sendo as palavras de Baudelaire e as gargalhadas demenciais de Nikopol a chave de acesso à vida secreta nas grandes cidades.

Tudo o resto seria ordem e justiça – dias felizes pois, e como se sabe os dias felizes não têm história.

WB sobre Baudelaire

Baudelaire por Nadar

(…)

Ailleurs, bien loin d’ ici! Trop tard! Jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
O toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

Charles Baudelaire, «À une passante»

What this sonnet communicates is simply this: Far from experiencing the crowd as an opposed, antagonistic element, this very crowd brings to the city dweller the figure that fascinates. The delight of the urban poet is love – not at first sight, but at last sight. It is a farewell forever which coincides in the poem with the moment of enchantment. Thus the sonnet supplies the figure of shock, indeed of catastrophe.

Walter Benjamin, «On some motifs in Baudelaire», in illuminations, Londres, Fontana Press, pp. 165-6.

Todo o Walter Benjamin está contido neste fragmento. A mulher que passa é uma pré-figuração do Angelus Novus das Teses. A possibilidade de redenção e a catástrofe contidas num único instante. A revelação profana. A multidão como uma emblematização do moderno e o choque como uma das dimensões decisivas do poético. E há Baudelaire, o poeta moderno por excelência. Falta Proust, claro, mas o ensaio começa com Bergson e Proust.