Melancólico até ao osso

長谷川等伯 (Hasegawa Tōhaku, 1539–1610)
長谷川等伯 (Hasegawa Tōhaku, 1539–1610)

Alguém me visita. Uma sombra. O som de um ramo de árvore batendo na superfície vidrada do insólito. Estou só. A amizade é uma dança ou um poço. Escuto a sua voz, embriago-me no tecido da percepção pretérita. Sonho-me à mesa do que fui. Lábios tocam a minha face. Abro uma caixa cuja transparência é um engano, um embuste. Dentro dela uma animal feroz, couraçado para a inquietude da morte que virá. Sou um animal desenhado a tinta-da-china na tela do logro. Um animal de partes, um padrão de movimentos. Um animal melancólico até ao osso.
Gosto das descrições que me elegem provisório e que se substituirão à minha presença de homem perigosamente inocente.

Canto onde, Lisboa, Cotovia, p. 102, 2006.

O pequeno Hamlet

Canto_Onde (2006)

O Tomás, o meu filho, brinca na velha ponte abandonada junto à casa onde habito agora. Gosto muito deste filho cheio de consequentes silêncios, reservas que lhe vêm do desamparo da infância – de toda a infância – mas que nele se sublinham como se um veio nocturno se acercasse das coisas que interroga. A mim tudo se me esquece quando olho este filho que espanca com um ferro o ferro da ponte. Observando-o na desatenção que o guarda assim no fotograma da memória, interpelo-o: «E leste O príncipe da Dinamarca?», e ele responde-me seco, mortalmente evasivo: «Não é O príncipe da Dinamarca, é O cavaleiro da Dinamarca», e volta a espancar, rebarbativo, o ferro.

Canto onde, Lisboa, Cotovia, 2006, p. 47.