A inútil poesia

Memorial do Holocausto num dia de neve, Berlim
Memorial do Holocausto num dia de neve, Berlim

Eu não vivo numa bolha de ar em Hartford.
Como posso ser fiel aos fiéis poemas
de Stevens
sem trair esta cilada?

Milosz sabe que a história é tudo o que temos
e que as traições maiores
são cometidas contra a história,
mas também em nome dela.

Como podemos nós
recuperar o sopro
que exaspera domínios no escuro,
a inumana beleza de um pavão
que abre a sua cauda
na noite iluminada,
e dizer depois
na rasa voz de quem abandonou
a inflexão retórica da sua voz,
Varsóvia, Treblinka, Celan, aldeias
cujos nomes esquecemos –
e é sintomático que os tenhamos esquecido –
onde lâminas aceradas esquartejaram
a eternidade de um rosto,
lugares – porque em cada nome
há um lugar – onde outros nomes se perfilam
num vórtice de tempos que se abrem sobre tempos
e gritos que se abrem sobre gritos,
e pétalas se expõem ao mortal apuro de se ter
sobre ombros a herança da qual
não há despedida, somente um cobarde desvio,
um conluio de silêncio e sangue?

Como esquecer? Como não esquecer?
Stevens, Milosz: uma corda de água
dança entre duas margens.
A corda é invisível
e eu procuro-a
sem método.
Aquele que me lê
deverá acreditar:

Deverá acreditar
que eu vivo
perscrutando as águas
mas dentro delas.

Duelo, Lisboa, Livros Cotovia, 2004, pp. 82-83.

Rua Castilho

A76576

Eu compreendia o poder da toponímia. Rua Castilho, escrevia-se, e o vírus da linguagem percorria o labirinto da história e da circunstância que fazia determinar-lhe os sentidos. Castilho fora um poeta cego envolvido em polémicas cuja esterilidade revelava o perfil de homens que juram mudar os seus tempos por reacção ao tempo de outros homens. Hoje, porém, é a figura de um poeta cego o que faz reverberar os códigos extremos, é o que faz desfilar a tradição e o que interpela o vazio que a tradição nos legou. A impressão solene e dolorosa de que chegados aqui não nos resta senão o medo ou a rasura, e que o caminho da rasura é o mais sedutor. Que tudo o resto é habilidade, técnica, ironia. Como são horrorosos os cegos porque olham para o que arde no insuspeito de uma paisagem onde nenhuma luz se escapa de tão densa. Mas Castilho é apenas uma pobre metáfora. Nada na sua habilidade soube destruir os seus próprios desígnios. Com a poesia sentimo-nos livres mesmo sob o advento das formas. Talvez Castilho se esquecesse que a solidão face ao arbítrio das ruas que se cruzam e apelam a nomes que se apagam nos cadernos do futuro nos reserva mais aventura que o sacramento entre homens de letras presos às sua ilusória relevância. O que se apaga deixa um vestígio de treva dentro de si e um cheiro a madeira ou a terra calcinada que nos persegue. A imoral, porque tão vaga, toponímia no coração de uma cidade detém mais lições que o proselitismo dos inflamados versos.

(Duelo, Lisboa, Cotovia, p. 45)

Il faut être absolument moderne

Duelo (2004)São mutuamente exclusivas as ordens da confissão e da poesia. Assim nos disseram os modernos. Sejamos modernos, pois. Mas quando vejo a minha mãe a subir (passo medido pelo cansaço e pela fraqueza) a Rua Castilho, a rua onde cresci e onde o mundo parece ter crescido desmesuradamente para a minha medida de homem acostumado às alturas (vivia num quinto andar que me parece agora um décimo), quando vejo a minha mãe de corpo pesado a subir a rua em direcção ao meu encontro, parando uma, duas vezes, passando as mãos pelo rosto suado (afinal estamos no pino do verão e a rua foi sempre soalheira, ou pelo menos soalheira deste lado em que a minha mãe sobe, o lado que habitámos após o nosso regresso das Áfricas, com o problema da habitação e tudo isso que parecia desesperar os entedeados do Império), quando vejo a minha mãe subir a rua onde a minha lembrança dela estaca e se precipita no vórtice da ilegislável brandura (a que terá feito Santa Teresa levitar ou algo entre a pura irrealidade e a pura realidade que todo o poema deveria sitiar), sei que os modernos nos pouparam ao infortúnio da confissão, mas que nos roubaram o idioma em que a luz de verão se faz de novo, como o princípio que quero descrever certeiramente sem que lhe saiba o tema ou a palavra que o torna claro.

Duelo, Lisboa, Lisboa, Cotovia, 2004, p. 46.