O som do mundo

Algumas semanas após a publicação pela Assírio & Alvim do belíssimo Fogo, destacaria um dos aspectos mais significativos e recorrentes da poesia de Gastão Cruz: a importância que o som tem aí como dispositivo de contaminação e deflagração da memória, isto é, do sentido.

Gastão é um dos grandes poetas da língua porque a sua poética não separa som de sentido. É como se todo o sentido fosse a realização de uma reverberação, de uma repercussão. Som e sentido são a pura imanência da linguagem, e a sua poesia não é apenas o testemunho disso, mas é também uma meditação sobre essa dupla identidade que técnica e intuição tendem a separar.

Trata-se, assim, de uma poesia marcadamente reflexiva. Uma forma de meditação lírica é, em meu entender, uma das marcas distintivas do seu fazer.

Em 2012, num livro de homenagem a quatro mãos (de Luis Maffei e Pedro Eiras) justamente intitulado A vida repercutida, tive o privilégio de o questionar sobre este processo de deflagração e contaminação.

Na resposta, Gastão retoma a sua memória da poesia («eco de um eco», dirá Manuel Gusmão), e diz-nos: «A poesia é, pois, um eco do mundo e de si própria, e, sendo “eco da palavra”, é, muitas vezes, através desse eco que igualmente escutamos “o som do mundo”» (Maffei & Eiras, 2012, pp. 202-3).

Bibliografia

Cruz, Gastão (2013) Fogo, Lisboa, Assírio & Alvim.

Maffei, Luis e Pedro Eiras (2012) A vida repercutida: uma leitura da poesia de Gastão Cruz, Lisboa, Esfera do Caos.

Poesia moderna

Edward Steichen, s/ título (Nova Iorque), 1905
Edward Steichen, s/ título (Nova Iorque), 1905

Para Gastão Cruz

Todas as línguas do mundo se sujaram.
Fomos condenados à gaguez triunfal
pela qual procuramos ainda dizer o que nos recusaram.

Na mínima dor há um pomar onde colhemos
os esplêndidos frutos que alimentam a nossa linfa, o nosso sangue,
a corrente que sem recurso nos prende
à furiosa morte.

A metáfora da alma será ainda a melhor dádiva
deste corpo tão eficiente e tão pobre.

Assim nos saciamos.