Mundo frágil, de erro certo

Cometa Halley, 1910
Cometa Halley, 1910

O mundo começa e acaba por passagem de um cometa. Os jornais dão notícia disso. Estamos em 1910, Maio. O mundo poderá ainda ser reencantado, prenuncia-se por três viagens, três biografias: Karl, Jorge, Fernando. Karl é uma projecção de Kafka. Jorge é, será mais tarde, Borges. Fernando é, será mais tarde, Pessoa. Karl é um espectro, uma ficção. Mas Jorge e Fernando não o são menos.

Toda a imaginação é hoje intertextual. Assim é também em No meu peito não cabem pássaros, primeiro livro de Nuno Camarneiro, publicado no ano de 2011, 101 anos depois da passagem do estranho Halley, o cometa que terá banhado com a sua cauda o planeta Terra, dando lugar a especulações de catástrofe iminente.

Gentes corriam a comprar máscaras que as protegessem do manto cianogénico que prometia a extinção. Tomavam-se comprimidos anti-cometa, vendiam-se chapéus de chuva especiais, preparados para um outro tipo de chuva, uma chuva cometária e mortal. Mark Twain, que nascera duas semanas depois do periélio de Halley, na passagem de 1835, vaticinava, em 1909, na autobiografia, a sua morte próxima, durante a passagem de 1910, e desse modo aconteceu.

Em Janeiro de 1910, sim, nesse mesmo ano, mas quatro meses antes, o planeta assistira à passagem de um outro grande cometa, de brilho intenso e ominoso. A histeria colectiva do ano de prodígios e anunciações, suicídios e sacrifícios, servirá de pano de fundo (discreto, quase sem explicitação) a três vozes e suas solitárias, divergentes, mas também simultâneas, circunstâncias.

Ficção, isto é, mapa de uma modernidade em contradição.

Perante um universo sem segredos, onde tudo se submete à lógica implacável da explicação e do determinismo, impõe-se a contaminação simbólica e o advento do que não poderá ser explicado, mas somente constatado. Densidade de gelo, densidade escura, como a matéria do Halley, e, no entanto, fragilidade extrema, condenação quase evidente por desadequação ou destituição. Dois poetas, ou duas infâncias programadas (Jorge e Fernando), uma personagem (Karl) que parte para a Nova Iorque equívoca, talvez de pesadelo, onde a Estátua da Liberdade (é essa uma das representações mais ferozes de América) segura uma espada e não um facho de luz, ou como escreve Kafka:

«Karl Rossmann era um moço de 16 anos que vinha para a América a mando dos seus pais, pessoas de poucos recursos, por uma criada o ter seduzido e dele ter tido um filho. § De pé, no paquete que lentamente entrava no porto de Nova Iorque, Karl Rossmann teve a impressão de que a Estátua da Liberdade, que há muito avistara, era agora iluminada por um sol mais forte. O seu braço, de espada em riste, parecia ter acabado de se erguer, e em redor dela sopravam livres os ventos» (1977, p. 5; itálicos meus).

Não sabemos se Kafka se enganou quando escreveu esta célebre sequência de América (romance inacabado, publicado postumamente em 1927, sendo também o primeiro romance de Kafka). Mas não importa. Porque é na facticidade e no erro que se faz inscrever a ficção. A poética está no seu reconhecimento, e Nuno Camarneiro, cientista e escritor, parece reiterá-lo através de uma manobra que é fundamentalmente cerebral.

A poesia é o ruído da ciência, e do que trata este livro senão de uma incursão, sob mediação intertextual, no ruído do mundo, aquele que a declinação científica parece colocar na periferia das suas atribuições qualificadas?

Poesia (Pessoa e Borges) e erro (Karl) são lugares sem lugar que não convêm à modernidade de órbitas claras (mesmo que elípticas) da ciência e da secularização desencantada que se declara, com estardalhaço, já em pleno século XX. 1910. Quatro anos antes da guerra que iria revelar o sinuoso rosto da modernidade sem mácula que a ciência e a técnica exigiam, a poesia e o erro constituiam a infância condenada pela razão a ocidente.

O livro de Nuno Camarneiro é uma aventura nessa possibilidade. Numa escrita que apela a uma divergência coexistente ou simultânea de três figuras (sendo qualquer uma delas uma hipótese de ficção), só há espaço para a afirmação da singularidade e da solidão que as percorre. Nenhuma se encontrará, e todas irão habitar a frágil vida sua, de erro certo, onde só a escrita (a de Fernando, a de Jorge, a de Karl-Kafka, mas também a de Nuno) poderá reivindicar o tema da coexistência sem encontro, mas porém contígua, simbolicamente partilhável, correspondente, ou como se enuncia na Buenos Aires da página 173:

«Por fim, lá se chega à idade de ver a vida pelo que não chegou a ser. O presente é terrivelmente condicionado pelo passado e por tantas leviandades cometidas sobre o tempo. Tudo a que um dia se brincou acaba por ser só memória e caminho, degrau de uma escada sempre a estreitar. Depois um homem senta-se à mesa e escreve por vingança contra si mesmo – para viver outras vidas, como dizem alguns.»

Bibliografia

Camarneiro, Nuno (2011) No meu peito não cabem pássaros, Lisboa, Dom Quixote.

Kafka, Franz (1977 [1927]) América, Lisboa, Publicações Europa-América.

[Lido em voz alta na Casa da Escrita, Coimbra, 3 de Maio de 2013.]

Três poemas de Jorge Luis Borges

Fotografia de Daniel Mordizinski
Fotografia de Daniel Mordizinski

A Recoleta

Convencidos da caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramo-nos e baixamos a voz
entre as lentas filas de panteões,
cuja retórica de sombra e mármore
promete ou prefigura a desejável
dignidade de estar morto.
Belos são os sepulcros,
o claro latim e as enlaçadas datas fatais,
a conjunção do mármore e da flor
e as pequenas praças com frescura de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única.
Enganamos essa paz com a morte
e cremos almejar nosso fim
e almejamos o sonho e a indiferença.
Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera,
só a vida existe.
O espaço e o tempo são formas suas,
são instrumentos mágicos da alma,
e quando esta se apagar
com ela se apagará o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
se extingue o simulacro dos espelhos
que a tarde foi apagando.
Sombra benigna das árvores,
vento com pássaros que sobre os ramos ondeia,
alma que se dispersa em outras almas,
teria sido um milagre deixarem de ser,
milagre incompreensível,
ainda que sua imaginária repetição
desminta com horror nossos dias.
Estas coisas pensei na Recoleta
no lugar de minha cinza.

O Sul

De um de teus pátios ter olhado
as antigas estrelas,
do banco da sombra
ter olhado
essas luzes dispersas
que minha ignorância não aprendeu a nomear
nem a ordenar em constelações,
ter sentido o círculo da água
na secreta cisterna,
o odor do jasmim e da madressilva,
o silêncio do pássaro adormecido,
o arco do saguão, a humidade
– essas coisas, acaso, são o poema.

A Rosa

A rosa
a imarcescível rosa que não canto,
a que é peso e fragrância,
a do negro jardim na alta noite,
a de qualquer jardim e qualquer tarde,
a rosa que ressurge da ténue
cinza através da arte da alquimia,
a rosa dos persas e de Ariosto,
a que sempre está só,
a que sempre é a rosa das rosas,
a jovem flor platónica,
a ardente e cega rosa que não canto,
a rosa inalcancável.

[Poemas retirados de Fervor de Buenos Aires (1923). In Obras completas, tomo I, Barcelona, Emecé Editores, 1989; edição de Carlos V. Frías]