Ser póstumo

Ser fiel a uma forma de pensar será, a meu ver, tentar compreender como responderia um autor a um tempo póstumo. Por exemplo, tenho a certeza que Wittgenstein se teria interessado fortemente por Ciência Cognitiva. De outro modo, Benjamin teria respondido a isso também. Imagine-se um Benjamin leitor de Ciência Cognitiva. Ser wittgensteiniano ou benjaminiano, hoje, será porventura perceber como é que isso poderia ter lugar num determinado espaço de pensamento.tumblr_m1nzmgZ0741qzaw2ro1_1280

O limite da palavra: anotação sobre «Ludwig W., em 1951» de Manuel António Pina

Um nome, uma data. Ludwig Wittgenstein morreu em 1951, justamente. E o poema de Manuel António Pina (publicado pela primeira vez em Nenhuma Palavra e nenhuma lembrança de 1999, pp. 10-11) devolve-nos o coincidente limite: a morte e a impossibilidade de dizer. O poema é aqui a linguagem da morte, ou a sua alegoria, porque é a linguagem do que não pode ser dito ou tão-só do reconhecimento de que só podemos balbuciar mesmo quando julgamos dizer. Estranha esta coincidência que faz da palavra e da morte o mesmo tema. Injustificável esta exigência a que o poema dá corpo de dizer o que à partida não poderá ser dito nunca. Assumir isso, e porém procurá-lo, como se o poema fosse apenas o vestígio disso. Há uma melancolia extrema na poesia de MAP que tem a ver com o modo como ela nos reenvia para a consciência do seu desamparo. LW é uma figura de eleição para compreendermos isto, porque em LW o drama que se encena é o do limite da palavra: sem ela não há azul, mas nem todo o azul do mundo cabe nela, sem ela não há dor, mas nem toda a dor do mundo cabe nela.