Finding a fit (mentes e máquinas #10)

Bronisław Malinowski, Kiriwina, Ilhas Trobriand
Bronisław Malinowski, Omarakana, Kiriwina, Ilhas Trobriand

Em Milplanaltos, Gustavo Rubim fez em tempos não muito distantes uma comunicação notável sobre a antropologia enquanto género literário. Fazendo salvarguardar a ausência de centro (não há axiologia, como diria Gilles Deleuze) da literatura e da antropologia, Rubim demonstrou como, historicamente, a antropologia se faz inscrever numa tradição que tem, a montante, o ensaio (a referência a Montaigne é aqui incontornável), a narrativa de viagens (Joseph-Marie de Gérando seria, segundo Rubim, o lance inaugural da etnografia), e o diário (a importância do diário como utensílio metodológico decisivo foi explicitada por Malinowski no seu Argonauts of the western pacific [1922]), e que esta tradição é, se quisermos, fundamentalmente a mesma que alimenta a literatura nas suas derivas e processos. Ausência de centro, ensaio, narrativa de viagens, diário. Literatura e antropologia (ou melhor, etnografia). No que diz respeito à etnografia, eu acrescentaria apenas que a ausência de centro terá sido substituída por algumas ficções que se vieram a revelar ilegítimas: a primitividade é seguramente uma dessas ficções ilegítimas.

Para mim, é aqui que a antropologia se afasta da etnografia, e, nesse sentido, da literatura, reivindicando, de algum modo, uma maior aproximação à filosofia e à ciência: a antropologia exige que consideremos a possibilidade de nem todas as descrições do mundo se revelarem igualmente válidas. Que poderá haver critérios que nos permitam ponderar a correcção. Finding a fit, como diria Goodman, e cito de memória o seu Ways of worldmaking (1978).

As ciências cognitivas recentes poderão ser um dos espaços de eleição desta procura. A procura das esmeraldas grue, das ficções ilegítimas, etc. Seja como for, parece-me também evidente que não podemos usar acriticamente aquilo que nos é oferecido pelas ciências cognitivas. Levanto, aliás, sérias reservas ao cognitivismo, isto é, à ciência cognitiva clássica, reservas essas que não andarão longe, em muitos dos seus aspectos essenciais, das que encontramos em algumas das suas versões mais críticas (de John Searle a Alva Noë, passando por Tim Ingold).

Bibliografia

Goodman, Nelson (1978) Ways of worldmaking, Indianapolis, Hackett.

Manlinowski, Bronisław (1922) Argonauts of the western pacific, Londres, Routledge & Kegan Paul.

Correcção, invenção, cognição (sobre mentes e máquinas #2)

goodmanLeio Nelson Goodman. «Não há nenhuma característica independente-de-versão, nenhuma verdadeira versão compatível com todas as versões verdadeiras» (1984, p. 33). «Fazemos versões e as versões verdadeiras fazem mundos» (id., p. 34). «O nosso fazer através de versões está sujeito a severos constrangimentos» (id., p. 36). A «coerência» é uma das respostas, mas não a única. A «indução» também não garante a verdade (como ele nos mostrará com o célebre exemplo das esmeraldas grue). A verdade é uma forma de «inércia modificada pela invenção» (id., p. 38). Inércia implica alguma forma de «deferência», como lhe chamaria Miguel Tamen seguramente (ver o seu belíssimo Amigos de objectos interpretáveis, 2001, p. 132). Mas para Goodman a parte de leão deste processo cognitivo (porque é disso que se trata, e o filósofo explicita-o ao longo do seu trajecto, mostrando-nos como arte e ciência se irmanam neste desígnio cognitivo) está do lado da invenção (que semanticamente implica descoberta e criação, em simultâneo). De alguma maneira, precisamos de versões do mundo que reclamem este lado projectivo de experimentação e de invenção renovadas. É disso que se trata. Uma ciência cognitiva renovada (pós-cognitivista) faz-se suportar numa re-invenção do «cognitivo» da frase. Para Goodman, e para a ciência cognitiva que merece a pena ser seguida, o cognitivo é um qualificativo amplo que não exclui nenhum aspecto do conhecer e do entender, «da descriminação perceptual ao reconhecimento de padrões, do entendimento emocional profundo à inferência lógica» (1984, p. 84). Mas temos de nos libertar dos troublemakers, dos nonrelevant kinds, das esmeraldas grue. A minha aposta é, neste sentido, e ao contrário do que continua a afirmar-se entre antropólogos, que os quase cinquenta anos de interferência e recíproca alimentação entre disciplinas do universo cognitivo (do qual a antropologia insolitamente se subtraiu) nos poderão levar, experimentalmente, a afinar algumas das proposições de referência no domínio. A perceber melhor, por exemplo, o alcance de «memória», «representação», «metáfora», «relativismo», «socialidade», «incorporação», etc.

Bibliografia

Goodman, Nelson (1984) Of mind and other matters, Cambridge, Masschusetts & Londres, Harvard University Press.

Tamen, Miguel (2001) Amigos de objectos interpretáveis, Lisboa, Assírio & Alvim.

Never mind mind (sobre mentes e máquinas #1)

4Estou cada vez mais convencido que até uma qualquer forma de irrealismo – o irrealismo de um Nelson Goodman que defende a possibilidade de um «relativismo radical sob restrições severas» (1984, p. 39) – depende, em última análise, de uma presunção de realismo qualquer. Assim, «a realidade é relativa» afigura-se ser, imediatamente, uma tese que presume uma ontologia, uma noção do real enquanto entidade fluida, volátil, contextual, a-fundamental. Uma tese realista, pois. E o contrário é também válido: porque toda a tese realista padece de um irrealismo que deriva do modo como se constrói o mundo. Modos de fazer mundos, mundos feitos, etc. Mas interessa-me também aqui assumir uma posição de outra natureza que se prende com a seguinte interrogação goodmaniana (e Nelson Goodman é seguramente um dos meus filósofos favoritos, um daqueles de que me sinto próximo em muitos aspectos): quais as restrições severas que definem o que é real no meu (nosso) irrealismo? Ou, de outra maneira, o que faz com que certos «modos de fazer mundos» sejam mais «correctos» do que outros? Defendo que alguns dos mundos criados pelas ciências cognitivas são estimulantes modos de corrigir o que é válido ou não enquanto descrição etnográfica. Ou seja, o relativismo antropológico terá margens que devem ser ponderadas, tal como as estrelas no céu e as constelações têm margens, fronteiras, circunscrições, que também devem ser ponderadas com correcção. Procurarei mostrar como é que isto é válido, na certeza porém que (e aí sou inteiramente goodmaniano!), «Never mind mind, essence is not essential, and matter doesn’t matter» (Goodman, 1984, p. 43).

Bibliografia

Goodman, Nelson (1984) Of mind and other matters, Cambridge Massachusetts & Londres, Harvard University Press.