Haikus de Tomas Tranströmer (traduções de Francisco José Craveiro de Carvalho)

Tomas Tranströmer
Tomas Tranströmer

Reúno aqui algumas das traduções que Francisco José Craveiro de Carvalho, poeta e matemático (também meu amigo e colega na Universidade de Coimbra), tem feito de Tomas Tranströmer. Poemas e traduções de Francisco José Craveiro de Carvalho podem ser encontrados na Relâmpago. Recordaria, ainda dentro do mesmo formato, o conjunto de haikus «As sapatilhas de Usain Bolt». Para lá da poesia, que tem vindo a publicar, não apenas na Relâmpago, mas também em belíssimas plaquetes de tiragem limitada, FJCC é co-autor, com a fotógrafa Lúcia Vasconcelos, de Lisboa: a felicidade estranha da princesa (2003).

Haikus

(de Tomas Tranströmer)

Os fios de alta tensão
no frágil reino do frio
para norte de toda a música.

*

O sol branco é um corredor
de fundo contra
as montanhas azuis da morte.

*

Temos de viver com
a relva miudinha
e o riso das caves.

*

Agora o sol está baixo.
As nossas sombras são de gigantes.
Tudo em breve será sombra.

*

As orquídeas roxas.
Petroleiros a deslizarem.
É lua cheia.

*

Uma fortaleza medieval,
uma cidade estrangeira, a esfinge fria,
arenas desertas.

*

As folhas a murmurarem:
um javali está a tocar órgão.
E os sinos repicaram.

*

A noite flui para ocidente
de horizonte a horizonte
ao ritmo da lua.

*

Um par de libelinhas
unidas uma à outra
passou a tremular.

*

A presença de Deus.
No túnel do canto dos pássaros
abre-se uma porta.

*

Carvalhos e a lua.
Luz e constelações silenciosas.
E o oceano gélido.

(Tradução baseada em versões inglesas de Robin Fulton e Patty Crane; há uma versão brasileira de Marta Manhães de Andrade.)

Vestígio de Tomas Tranströmer

Li hoje As minhas lembranças observam-me de Tomas Tranströmer. O livro foi publicado o ano passado pela Sextante Editora. Termina quase abruptamente, desafiando a aparente serenidade que se desenha ao longo de capítulos escritos num registo sóbrio, discreto, por vezes irónico. A escrita parece apontar para algo que se prende com a impropriedade da idade adulta, e termina com um capítulo sobre a passagem de Tranströmer pelo «último ciclo do liceu» («No outono de 1946 entrei no último ciclo do liceu, na secção do Latim.» [p. 71]). Depois disso, todos os tempos parecem valer a mesma coisa, e Horácio é um contemporâneo de René Char, e o mundo é, em essência, literatura, o que, ao lado dos sortilégios da infância e da juventude mais remota, se afigura coisa de pequena monta. É como se toda a poesia radicasse, talvez, numa certa modalidade do simbólico que está nas primícias do tempo vivido, sabendo-se porém que esse tempo é irresgatável, que talvez só possa ser humildemente acolhido quando a isso caprichosamente se dispõe. E, como nos sugeriu Walter Benjamin, há o vestígio, o distante tornado próximo,  sob a forma de poemas. Poemas de juventude que se publicam no final deste pequeno livro numa curta e luminosa antologia. Citaria um exemplo retirado da página 87, em tradução de Alexandre Pastor:

«adormecer com
olhos abertos
para extensas vertentes

a tua teia está coberta
de manchas cegas
o teu mapa de navegação foi desenhado
em pele de pantera
as tuas redes de pesca apodrecem no mar
onde tu próprio as esqueceste»