O homem da guitarra azul & outros poemas (Wallace Stevens, 1937)

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Aí está a minha tradução de The man with the blue guitar & other poems (1937) de Wallace Stevens. Saiu há poucos meses nas Edições Gulhotina. É um livro importante para mim, por muitas razões, algumas das quais estão contidas no ensaio introdutório, ou numa mais antiga versão que publiquei aqui. Há, pelo menos, mais duas traduções portugueses, que não conheço, e ainda bem, quanto mais não seja porque não fui condicionado por elas no exercício de tradução. Aliás, a tradução andava comigo há anos, mas nunca encontrou ninguém genuinamente interessado na sua publicação. Os meus agradecimentos vão para as Edições Guilhotina. Penso, muito sinceramente, que é um dos livros mais importantes de poesia do século XX. É uma das minhas grandes alegrias de leitor e escritor.

Haikus de Tomas Tranströmer (traduções de Francisco José Craveiro de Carvalho)

Tomas Tranströmer
Tomas Tranströmer

Reúno aqui algumas das traduções que Francisco José Craveiro de Carvalho, poeta e matemático (também meu amigo e colega na Universidade de Coimbra), tem feito de Tomas Tranströmer. Poemas e traduções de Francisco José Craveiro de Carvalho podem ser encontrados na Relâmpago. Recordaria, ainda dentro do mesmo formato, o conjunto de haikus «As sapatilhas de Usain Bolt». Para lá da poesia, que tem vindo a publicar, não apenas na Relâmpago, mas também em belíssimas plaquetes de tiragem limitada, FJCC é co-autor, com a fotógrafa Lúcia Vasconcelos, de Lisboa: a felicidade estranha da princesa (2003).

Haikus

(de Tomas Tranströmer)

Os fios de alta tensão
no frágil reino do frio
para norte de toda a música.

*

O sol branco é um corredor
de fundo contra
as montanhas azuis da morte.

*

Temos de viver com
a relva miudinha
e o riso das caves.

*

Agora o sol está baixo.
As nossas sombras são de gigantes.
Tudo em breve será sombra.

*

As orquídeas roxas.
Petroleiros a deslizarem.
É lua cheia.

*

Uma fortaleza medieval,
uma cidade estrangeira, a esfinge fria,
arenas desertas.

*

As folhas a murmurarem:
um javali está a tocar órgão.
E os sinos repicaram.

*

A noite flui para ocidente
de horizonte a horizonte
ao ritmo da lua.

*

Um par de libelinhas
unidas uma à outra
passou a tremular.

*

A presença de Deus.
No túnel do canto dos pássaros
abre-se uma porta.

*

Carvalhos e a lua.
Luz e constelações silenciosas.
E o oceano gélido.

(Tradução baseada em versões inglesas de Robin Fulton e Patty Crane; há uma versão brasileira de Marta Manhães de Andrade.)

Vigília

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Partiste agora
cegam-me as tuas pequenas perfeições:
a curva das pestanas fechada no sono
alarga-se até ao meu horizonte.

Insone
costumava observar as pupilas moventes,
mudando deltas de veias azuis,
cegamente percorrendo a minha face.

Aproximei-me em algumas noites,
os meus lábios em contacto
com as tuas pálpebras pulsantes
agarrando a deriva do teu sonho.

(Tradução a partir de «vigil» de Peter Dale)

Só, na paisagem

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Plucking feathers from a swan song, canta Scott Walker. Quantas vezes fomos conduzidos até ao limite da música, até ao depois da música? Walker caminha só, na paisagem.

Vê se não bates com a cabeça dele

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a primavera poderá, com gentileza,
pressionar com os polegares
os teus olhos.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

uma teia de aranha derrete
dentro de um ventre.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um incontinente
canta Scarpia.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

um exemplo mítico
de impulso erótico –

enquanto se arranca penas
de um canto de cisne,

– escorregar sob
um signo certeiro.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

rotíferos
juntam-se no
circuito das tripas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a merda poderá dar o nó
nos intestinos de Cristo.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

ser esmagado
de dentro para
fora.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

na neve
«Rummy» exibe
a sua baba
efeminada.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

uma minúscula risada
suja tudo aquilo
em que toca.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

a noite cessa de pingar
através das estrelas.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne,

quebrar o lençol
de jóias
de horizonte a horizonte.

Enquanto se arrancam penas
de um canto de cisne.

Canção (St John Perse)

[«Canção» é o fragmento de abertura de Anabase de St.-John Perse (1887-1975). Foi publicado pela primeira vez em 1924. Terá sido aí que Alexis Leger assumiu o pseudónimo de St.-John Perse, que o irá acompanhar até ao fim. Após a publicação deste poema, Perse deixará de publicar durante vinte anos. A marca indelével de Anabase pode ser encontrada, em particular, em T.S. Eliot que traduziu admiravelmente o poema em 1930 em colaboração com o autor. Anabase, que segundo se diz, foi composto num templo abandonado perto de Pequim nos anos vinte (quando Alexis Leger se encontrava em serviço diplomático na região) é um dos grandes momentos da poesia ocidental. Eliot descreveu-o, no prefácio à sua tradução, como «uma série de imagens de migração, de conquista de vastos espaços desolados da Ásia, de destruição e fundação de cidades e civilizações de quaisquer raças ou épocas do Oriente antigo» (Eliot, 1959 [1931], p. 9). Lembro-me de o ter lido numa edição bilingue da velhinha faber and faber (St.-John Perse | T.S. Eliot) nos anos oitenta em Lisboa e de ter então traduzido a «Canção» de abertura, que existe como uma folha dactilografada à máquina e dobrada dentro do meu exemplar da preciosa edição inglesa de Anabase (ou Anabasis, a usar o título que Eliot lhe deu). Deixo-a aqui. Agrada-me o lado solene, virtuosístico e algo arcaizante da escrita deste enorme poeta de língua francesa do século XX. Foi-lhe justamente atribuído o Prémio Nobel em 1960.]

Sob as folhas de bronze um potro nasceu. Alguém depositou amargos frutos em nossas mãos. Estrangeiro. Que passou. Eis que chegam novas de outras províncias do meu agrado… «Eu vos saúdo, filha, sob a mais alta das árvores do ano.»

Pois que o Sol entra no signo do Leão e o Estrangeiro tem seu dedo na boca dos mortos. Estrangeiro. Que ri. E fala-nos de uma erva. Ah! das províncias sopram tantos ventos. Folguedos em nossos caminhos! alvoraçada trompa; regozijo de plumas, delícia da asa!… «Minha alma, grande rapariga, tiveste maneiras tuas que não as nossas.»

Sob as folhas de bronze um potro tinha nascido. Alguém depositou amargos frutos em nossas mãos. Estrangeiro. Que passou. Sob a árvore de bronze eis um grande ruído de vozes. Rosas, betume, dom do canto, em câmaras trovão e flautas! Ah! que folguedos em nossos caminhos, num ano tantas histórias, e o Estrangeiro com suas maneiras pelos caminhos da terra inteira… «Eu vos saúdo, filha, envolta no mais belo manto do ano.»

Bibliografia

Perse, St.-John (1959 [1931] Anabasis, Londres & Boston, faber and faber (tradução e prefácio de T. S. Eliot; inclui ainda uma bibliografia e prefácios de Valéry Larbaud, Hugo von Hofmannsthal, Giuseppe Ungaretti e Lucien Fabre).

St. John Perse
St.-John Perse

 

O optimista mecânico (Wallace Stevens)

Wallace Stevens, 1952
Wallace Stevens, 1952

Uma senhora morria de diabetes.
Escutava o rádio,
Cingia os ditirambos menores.
Reúne assim o céu o balir dos inocentes.

Chapinhando melódicos remoinhos,
Afectuosas, agitavam-se suas inúteis braceletes,
A ideia de deus não mais salpicada
Em raízes de caracóis indiferentes.

A ideia dos Alpes crescia imensa,
Porém, não ainda uma coisa na qual morrer.
Mais sereno parecia somente morrer,
Ao acaso flutuar na mais fluente balsa,

Numa voz alegre acompanhado
Pela exegese de coisas familiares,
Como a noite antes de Natal e de todos os cânticos.
Rejubila, rejubila, senhora que morres!

[Parte I de «A thought revolved»; retirado de Collected poems, Londres e Boston, faber and faber, 1990 [1955], pp. 184-5; originalmente publicado em The man with the blue guitar, 1937]

Jardim místico & besta sofrível (Wallace Stevens)

Wallace Stevens, anos cinquenta
Wallace Stevens, anos cinquenta

O poeta a passo largo seguindo entre lojas de charutos,
O almoço de Ryan, chapeleiros, seguros e remédios,
Nega que a abstracção seja um vício excepto
Para o fátuo. Estes são os seus muros infernais,
Um espaço de pedra, de inexplicável esteio
E cumes que pairam acima de adjectivos possíveis.
Um homem, a ideia de homem, esse é o espaço,
O vero abstracto no qual ele passeia.
A idade da ideia de homem, o manto
E a fala de Virgílio abandonados, é aí que ele caminha,
É aí que os seus hinos vêm aos magotes, hinos-heróis,
Corais para vozes da montanha e o cântico moral,
Feliz em vez de sagrado mas alto-feliz,
Hinos diurnos em vez de rimas consteladas,
E a ideia de homem, o jardim místico e
A besta sofrível, o jardim do paraíso
E ele que criou o jardim e que o povoou.

[Parte II de «A thought revolved»; retirado de Collected poems, Londres e Boston, faber and faber, 1990 [1955], p. 185; originalmente publicado em The man with the blue guitar, 1937]

Dois poemas de Wallace Stevens

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INVECTIVA CONTRA OS CISNES

A alma, ó gansos, voa para lá dos parques
E muito para lá das discórdias do vento.

Uma chuva brônzea do sol descendo assinala
A morte do verão, que neste tempo persiste

Como alguém que rabisca um apático testamento
De garatujas douradas e páfias caricaturas,

Legando as vossas penas brancas à lua
E ofertando os vossos delicados movimentos ao ar.

Vejam, já nas longas paradas
Os corvos ungem as estátuas com seus excrementos.

E a alma, ó gansos, sendo solitária, voa
Para lá das vossas indiferentes carruagens, para os céus.

NAS CAROLINAS

Os lilases murcham nas Carolinas.
Já as borboletas adejam sobre os camarotes.
Já os recém-nascidos interpretam o amor
Nas vozes das mães.

Mãe intemporal,
Como é que teus galantinos mamilos
De uma vez verteram mel?

O pinheiro adoça o meu corpo
A íris branca embeleza-me
.

[Poemas retirados de Wallace Stevens, Collected Poems, Londres e Boston, Faber and Faber, 1990 [1955], pp. 4-5; originalmente publicados em Harmonium, 1923]

William Carlos Williams (O carrinho de mão vermelho)

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The red wheelbarrow é seguramente um dos poemas mais famosos da poesia norte-americana. Estranho e irreprensível poema onde nada se passa e tudo se passa, onde o contexto é suprimido subitamente, como se tivéssemos interrompido uma conversa ou surpreendido uma conversa, e dela, do seu sentido prático e eloquente, retirássemos um sentido metafísico, enigmático, infranqueável. Aqui fica a minha tradução desse belíssimo poema publicado originalmente em Spring and all, livro de 1923. Assume-se aqui o título que lhe é atribuído vulgarmente; seja como for, o poema aparece, em Spring and all, sem título, com o numeral «XXII». William Carlos Williams morreu, faz hoje, 50 anos (4 de Março de 2013).

O CARRINHO DE MÃO VERMELHO

tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

vítreo de água
da chuva

ao lado das galinhas
brancas.

[Retirado de The collected poems of William Carlos Williams, volume I, 1909-1939, Nova Iorque, New Directions, 1991, p. 224]

Cavando (Seamus Heaney)

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta: ajustada como uma arma.

Sob a minha janela, um nítido arranhado som
Quando a pá mergulha em solo pedregoso:
Meu pai, cavando. Eu olho de revés
Até que, no canteiro, suas nádegas distendidas
Se dobram baixo, avançam vinte anos distantes
Com ritmo curvando-se através de sulcos de batata
Onde ia cavando.

A tosca bota aninhada na alça, o cabo
De encontro ao joelho era apoiado com firmeza.
Enraizava caules altos, enterrava fundo a lâmina reluzente
Para, de novo, semear batatas que nós colhíamos
Adorando a sua fresca aspereza em nossas mãos.

Por Deus, o homem sabia como manejar a pá,
Tal como seu pai.

Meu avô cortava mais turfa num dia
Que qualquer outro no paúl de Toner.
Uma vez levei-lhe leite numa garrafa
Desleixadamente arrolhada em papel. Ele aprumou-se
Para o beber, e de imediato se quedou
Penetrando, elegantemente cortando, lançando torrões
Sobre o seu ombro, descendo mais e mais
Até à boa turfa. Cavando.

O cheiro frio do húmus, o chapinhar e o esborrachar
Da turfa encharcada, os súbitos cortes de uma lâmina
Através de raízes acordam na minha cabeça.
Mas eu não tenho pá com que seguir homens como eles.

Entre o meu indicador e o meu polegar
Jaz a acocorada caneta.
Eu cavarei com ela.

[Poema retirado de New selected poems, 1966-1987, Londres, Faber and Faber, 1990, p. 1; originalmente publicado em Death of a naturalist, 1966]