Uma polaroid

Duarte1997
Duarte

Após o abandono da casa,
sobraram-me os objectos
que deixaste ou esqueceste:
os velhos sapatos, a pasta
em que arquivavas
as tuas dívidas de anos,
o magoado crédito da tua ausência,

e a primeira polaroid:

frente ao branco que te serve de cenário,
o verde da planta alonga-se a teu lado –
«Não a deixes tocar o tecto,
Corta-lhe as hastes.»

Alguém morrerá depois do imenso trajecto.

De mãos nos bolsos,
preparas-te para
a inamovível mudez

e sorris para o espectáculo de ti.

Umbria, Guimarães, Pedra Formosa, 1999, p. 32.

Dois príncipes, dois exércitos, uma clareira

Umbria1999
Dois príncipes, dois exércitos convergem para uma clareira.
Encontram-se. Cumprimentam-se.
É uma teoria da vulnerabilidade
o que revela este painel de azulejos no qual ninguém repara.
Há um centro ocupado por dois homens.
Há os flancos e os demais guerreiros de intenções semelhantes
mas de porte diverso.
E tu um pouco afastada, atenta ao meu rosto
que se debruça sobre as narrativas
distraidamente construídas, aguardando
um sinal da minha atenção dispersa.
Sempre o drama do que se não tem,
e por trás de ti a imagem do que haveria de haver.
Vulneráveis e nobres senhores num painel de azulejos.
Reconhecem-se nos passos um do outro,
nos gestos que se sucedem um para o outro.
Reconhecem-se no modo como os homens que os seguem
se suspendem sob o poder dos símbolos.
Preparados para a mútua anulação,
observo o que tem lugar para lá de nós,
o que se situa atrás da imagem que celebrando o encontro
traz a promessa de um adeus: aproximo-me da clareira,
deixo-me envolver pelo seu imaginário fulgor.
Fecho os olhos, e não te oiço.
Sei que estás ali junto aos mistérios da despedida,
de memória fechada e vigilante.
Procuro ignorá-lo, esquecê-lo.
De olhos fechados, concentro-me
no fulgor de uma imagem que nunca o teve.
As figuras tornam-se imperceptíveis,
contemporâneas na morte que, entre nós, se anuncia.
Friamente, príncipes e exércitos afastam-se,
penetram na frondosa manta que lhes serve de moldura,
esse espaço feito de bosques escuros em que a luz
dificilmente encontra o seu rumo.
Não fosse a minha impossibilidade
em escutar-te, distraído pelo fúnebre espectáculo
de uma esperança que acaba no preciso momento
em que o último dos homens desaparece no horizonte negro
das árvores altas, e talvez ousasse atribuir-te
esta opacidade que desemboca no medo e na suspeição recíproca,
talvez ousasse culpar-te de tudo isto que termina no desenlace
de uma imagem onde, por breves segundos,
a invisibilidade se estilhaçou, se liquefez
na humidade das árvores que lhe servem de moldura.
Dois príncipes, súbditos da clareira, e os exércitos,
formas vagas de corpos tensos,
submeter-se-iam à vontade do silêncio,
não tivessem entretanto abandonado a clareira,
receosos do que se seguiria.

Umbria, Guimarães, Pedra Formosa, 1999, pp. 29-30.