Jogo profundo

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Cy Twombly, Heroes of the Achaeans. Fifty Days at Ilium (1978)

Comentário a Jean Giono

Estarei sempre do lado dos troianos, reafirmando
a pergunta essencial: que procuram os gregos ainda?
Que querem eles sob o pretexto da devolução de Helena?

Os que combatem na Ilíada não fazem
outra coisa senão retomar o jogo profundo que a guerra é.
Haverá sempre guerra para divertir os homens.
A grande alegria foi e sempre será a guerra,
e todas as guerras são de Tróia. Uma Tróia eterna
abate-se sobre o mundo desde a origem.

Numa manhã futura, sempre tão próxima,
os gregos desembarcarão em praias de Tróia,
como se fossem terríveis crustáceos couraçados,
dextros em dardos, pinças, sublimes armaduras.
A cidade será saqueada e incendiada, e nada sobrará
que não seja memória e incerta clareza de mapas
e especulações intermináveis sob o princípio e a ordem
que deve haver algures no ciclo de mortes e violências
sem nome que se repetem e repetirão até ao fim do tempo.

Representações da violência

Publicado em parceria pela Almedina e pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, saiu há poucas semanas. Organizado por António Sousa Ribeiro, trata-se de um conjunto de ensaios particularmente estimulante sobre as representações da violência, mas também sobre a violência das representações. Textos de António Sousa Ribeiro («A representação da violência e a violência da representação»), Roberto Vechi («Espaço e violência no tempo do abandono»), Maria Irene Ramalho («A violência da cultura: sexo, espécie e colonialidade em Maria Velho da Costa»), Catarina Martins («Para lá da representação? Repensar a violência na prosa ensaística de expressão alemã do início do século XX»), Júlia Garraio («Uma história “conveniente” de violações em tempo de guerra: por que razão a Alemanha de Adenauer rejeitou Uma mulher em Berlim e enalteceu Diário prussiano»), Adriana Bebiano («Cicatrizes e feridas: a ficcão contemporânea perante o passado»), Maria José Canelo («Dominar o medo e controlar a violência: a Segunda Guerra Mundial na revista Common Ground»), Isabel Capeloa Gil («Odeia o teu próximo! O inimigo interno em In the valley of Elah de Paul Haggis»), Silvia Rodíguez Maeso («Narrativas instauradas, discurso jurídico y testimonios en la CVR peruana: el contexto de la denuncia»), José Manuel Pureza («A turbulência das zonas de fronteira: estereótipos, representações e violências reais»), e Luís Quintais («A bioarte e a mão invisível da ciência: violência, iconoclash e bioclash em Decon de Marta de Menezes»).